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Daniel

Sertanejo

Poeira Da Estrada - Dia De Visita - Fazenda São Francisco

Daniel

Levantei a tampa, voltei ao passado
Meu mundo guardado dentro de um baú
Encontrei no fundo todo empoeirado
O meu velho laço bom de couro crú
Me vi no arreio do meu alazão
Berrante na mão no meio da boiada
Abraçei meu laço velho companheiro
Bateu a saudade, veio o desespero
Sentindo o cheiro da poeira da estrada

Estrada que era vermelha de terra
Que o progresso trouxe o asfaltado e cobriu
Estrada que hoje chama rodovia
Estrada onde um dia meu sonho seguiu
Estrada que antes era boiadeira
Estrada de poeira, de sol, chuva e frio
Estrada ainda resta um pequeno pedaço
A poeira do laço que ainda não saiu

Minha vida nesta cela é olhar pela janela, e esperar...
No Domingo lá vem ela caminhando sempre bela, me consolar...
Traz notícias da cidade onde explica essa verdade, eu lhe perdi...
Foi um crime sem motivos dois ou três aperitivo, eu tô aqui...

Aqueles olhos verdes, me trouxeram pra cá
Mas alguma esperança, vai me libertar

Eu fiz a maior proeza,
Nas bandas do rio da morte,
Com outro caminhoneiro,
Traquejado no transporte.

Fui buscar uma vacada,
Para um criador do norte,
Na chegada eu presenti,
Que era dia de sorte,
Depois do embarque feito só ficou um boi de corte.

O mestiço era bravo,
Que até na sombra investia,
E a filha do fazendeiro,
Molhando os lábios dizia.

Eu nunca beijei ningüém,
Juro pela luz do dia,
Mas quem montar esse boi,
Lhe tirar a valentia,
Ganha meu primeiro beijo que darei com alegria.

Vendo a beleza da moça,
Meu sangue ferveu nas veias,
Eu calcei um par de esporas,
E passei a mão na peia.

Peguei o mestiço a unha,
Rolei com ele na areia,
Enquanto ele esperneava,
Fui apertando a correia,
Mas quando sentei no lombo
foi que eu ví a coisa feia.

O boi saltou a porteira,
No primeiro corcoviado,
Numa ladeira de pedra,
Desceu pulando furtado.

Saía linguas de fogo,
Cheirava chifre queimado,
Quando os cascos do mestiço,
Batiam no lageado,
Parou berrando na espora
ajoelhando derrotado.

Pra cumprir sua promessa,
A moça veio ligeiro,
Me disse: "você provou,
Ser peão de boiadeiro".

Dos prêmios que eu vou lhe dar,
O beijo é o primeiro,
Sua boca foi abrindo,
Seu olhar ficou morteiro,
Nessa hora eu acordei abraçando o travesseiro.


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